Portugal: muito convívio, pouca vida associativa
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Os portugueses estão entre os europeus que mais frequentemente convivem com amigos, familiares e colegas, mas entre os que menos pertencem a associações.
Portugal apresenta um contraste muito intenso entre duas formas de participação na vida social. Por um lado, os portugueses convivem muito frequentemente com outras pessoas. Por outro, a pertença a associações e organizações é excecionalmente reduzida no contexto europeu.
Os dados do Inquérito Social Europeu (ESS) mostram claramente a primeira parte deste padrão. Na ronda mais recente, dados de 2023, cerca de 77% dos portugueses afirmavam conviver com amigos, familiares ou colegas pelo menos uma vez por semana, a segunda percentagem mais elevada entre todos os países participantes, apenas atrás da Noruega.
E não se trata de um resultado ocasional. Portugal ocupou o primeiro lugar em oito das onze rondas do ESS desde 2002 no que respeita à percentagem de pessoas que convivem com amigos, familiares ou colegas várias vezes por semana ou diariamente. O convívio social frequente parece, assim, ser uma característica especialmente persistente da sociedade portuguesa.
Contudo, quando passamos da sociabilidade informal para a participação em organizações, encontramos quase o padrão inverso. Segundo a vaga mais recente do Estudo Europeu dos Valores (EVS), apenas 3% dos portugueses com 18 ou mais anos pertenciam a organizações desportivas ou recreativas, 2% a organizações educativas, artísticas ou culturais, e ainda menos a sindicatos, partidos políticos ou associações profissionais.
Em quase todos estes casos, Portugal encontra-se no fundo da distribuição europeia. Entre os países abrangidos por estes indicadores, temos a percentagem mais baixa de pertença a partidos políticos e associações profissionais e a segunda mais baixa no caso dos sindicatos, das organizações educativas ou culturais e das organizações desportivas ou recreativas.
O contraste é importante porque mostra que sociabilidade e associativismo são coisas muito diferentes. Uma sociedade pode ser caracterizada por contactos pessoais muito frequentes entre familiares e amigos sem que esses contactos se traduzam em níveis elevados de participação em organizações formais. Na investigação sobre estes temas fala-se por vezes de dois tipos de "capital social": informal, ligado a redes densas de apoio e convívio social e familiar; e formal, ligado à pertença a associações e organizações. E sabe-se que, no Sul da Europa, incluindo Portugal, níveis elevados do primeiro coexistem com baixos níveis do segundo.
Estes dados não permitem explicar por que razão Portugal combina estas duas características, nem significam que as mesmas pessoas que convivem frequentemente sejam necessariamente aquelas que não participam em associações. Mas o padrão é invulgarmente claro. Portugal destaca-se simultaneamente pela intensidade do convívio quotidiano e pela fragilidade da pertença associativa. A vida social portuguesa parece acontecer muito mais através de relações informais entre pessoas do que através da participação em associações.
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